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segunda-feira

Trancar não é tratar

Lourdes passou metade da vida trancada e a outra metade tratando de internos do Pinel em Pirituba.
Crianças não podiam entrar no Hospital, então eu só fui conhecer como era lá dentro este ano quando precisei requisitar um documento. É bonito por dentro tanto quanto se podia ver de fora.
Minha memória não apaga uma imagem de um surto que ela teve. Eu devia ter uns quatro anos. Todo mundo em casa acordou. Ela tomava banho com detergente de cozinha. Maria Jose tentou tirá-la de lá. Ela ficou agressiva. Ouço sons de uma luta no corredor da casa. Já no hospital, vejo-a amarrada numa maca, não lembro dos gritos dela, só que lhe dão uma injeção que vai fazendo seu corpo mexer mais devagar até seus olhos fecharem. Meu tio riu não sei por quê o que fez acender no meu peito infantil uma chama de ódio legítimo. Fui perdoar já adulta, mas ainda doi.
Tudo isso deixa cicatriz, dessas que movem a gente para um tempo em que isso não aconteça de novo jamais.
#lutaantimanicomial #saudemental #DiaNacionaldeLutaAntimanicomial #manicomiosnuncamais #pinel

Camisa xadrez

Certa feita minha mãe fez seu psiquiatra surtar. Ela fazia psicoterapia de grupo e individual no Hospital do Servidor Público Estadual. Teve um sonho com seu psiquiatra e ele estava usando uma camisa xadrez. Mencionou o sonho para ele. Descreveu a camisa.
Passaram-se semanas. Ele só contou a ela depois, mas revirou a casa e achou essa camisa, tal e qual ela havia descrito.
Nem ele lembrava mais da camisa xadrez, nem mãe jamais o vira vestindo a tal.
Alguns vão chamar de sexto sentido, outros de esquizofrenia, outros de mediunidade, outros de paranormalidade. Você chamaria de que?
#18demaio #DiaNacionaldeLutaAntimanicomial

Rimbaud no hospício

Uma vez fui de carona pra SP visitar um amigo que estava internado na ala psiquiátrica do hospital. Rara vez na vida que visitei qualquer pessoa nessas condições. Nem minha avó eu fui ver quando ela estava no fim da vida. Mas naquele mesmo hospital eu nasci. Naquele mesmo hospital me tratei na infância das alergias de pele. Naquela ala psiquiátrica minha mãe ficou internada. E ali discuti com sua médica quando tinha 17 anos. Ela afirmando que minha mãe era doente e eu dizendo que não.
Meu amigo reclamou da comida sem sal. Eu levava um livro do Rimbaud com poemas que estava lendo. Dei o livro a ele. Ele abriu uma página aleatória, subiu no banco do refeitório e começou a declamar.
Nunca mais a poesia fez tanto sentido.
#ManicomiosNuncaMais #18demaio #DiaNacionaldeLutaAntimanicomial

Loucura e fuga

Mas sua mãe é louca. Você vai querer morar com ela? Isso me diziam. Eu sentia medo dela. E vergonha.
Nem lembro quando deixei de sentir medo. Me deixei enlouquecer, mas nunca houve entrega. A loucura nunca me pegou nos braços e amamentou. Leite que não presta, eles diziam.
A loucura rondou da sola dos meus pés à membrana das minhas células. E vai comigo para o túmulo.
Medo e vergonha me valeram pouco. Mas fugir desembestada da loucura, me trouxe até aqui.
#18demaio #LutaAntimanicomial

Minha cabeça não está muito boa

Tem vezes que ela diz: "Minha cabeça não está boa".
Quando eu era criança não entendia por que minha mãe tinha escolhido trabalhar num hospital psiquiátrico. Ela relatava algumas coisas. Que os choques elétricos eram horríveis. Que teve um acidente de trabalho por estar sozinha numa clínica e ser agredida pelas pacientes até ficar desacordada. Que era preciso esconder o álcool de limpeza para os pacientes alcoolistas não beberem.
Mas uma das coisas que mais me impressionava era o fato dela ter que dar banho e limpar o cocô dos pacientes.
Havia um profundo amor naquilo que ela fazia: cuidar dos outros. Cuidar de gente desconhecida.
Esse amor ao cuidado ficou registrado em mim num lugar fora da lógica.
Nem sempre eu sou a cuidadora que ela foi. Mas tento.
Nem sempre minha cabeça está boa, mãe.

#DiaNacionaldeLutaAntimanicomial #ManicomiosNuncaMais #18deMaio


sábado

Em Olinda os Cronópios dançam com fogo

Quando a lua vai crescendo, enche meu coração de memórias.
Hoje lembrei de uma argentina que conheci numa viagem de carona que fiz de SP a Olinda-PE. Era artista de rua, destas que dançam com fogo. Obviamente foi amor a primeira vista e recíproco. Amor e encantamento. Num papo breve sobre autores Jorge Luis Borges foi consenso. Até que perguntei a ela o que achava de Júlio Cortázar. "Enquanto a Argentina enfrentava uma ditadura, ele escrevia sobre Cronópios". Foi a resposta.
Cortázar era um desterrado. Ele próprio um cronópio. Não nasceu na Argentina, embora lá tenha vivido muito tempo. Para mim os cronópios e os famas são a própria alegoria, não de uma polaridade política, direita-esquerda, nem da dicotomia bem-mal, para além disso, são o apolíneo e o dionisíaco encarnados fábula. Uma fábula amoral.
Quanto a moça argentina cujo nome me esqueci, ela própria um cronópio, seguiu sua estrada com uma saia preta que dei de presente a ela. Em Olinda coube a um fama presentear à moça.

quinta-feira

Desafio Ar-Tesão-nato

30 dias de Ar-Tesão-Nato

1 - origami






2 - mini-zine









3- brinquedo
4 - desenho
5- yoga
6- poesia
7- mini-vestido
8. latinha
9- origami nível 2
10 - prosa
11- conto
12- ilustrar palavra
13- coreografar poema
14- fotografar o vazio
15- ticar uma lista
16- desenho num plano inclinado
17- movimento no plano inclinado
18- mini-música
19- poema cena
20- saraulizar
21- prosa nível 2
22- ilustrar me
23- hq
24- yoga nível hard
25- intensivo de ritmo
26- utilidade fútil
27- artesania roots
28- make and picture
29- pinta corpo
30- nu ante

domingo

Minha amiga e minha cor

Faz duas semanas limparam meu quintal.
Colhemos um quilo de abóbora de cabaça e um quilo de batata doce branca.
Dei a batata - presente de Oxalá que eu nem esperava - e fiquei com a abóbora que matou minha fome por dias.
Tenho uma fome de herança. Minha bisavó pulsa no meu sangue, com seu rosto ímpar e seu cabelo sedoso, preto lustroso igualzinho ela se mostrou na memória de minha vó e eu vi.
Meu vô preto era só silêncio e balas que eu roubava do bolso do seu paletó quando parou de fumar. O primeiro velório que presenciei, arrebata minha presença daqui prali.
Minha amiga se foi faz sete dias e só hoje desata esse nó do meu peito, esse choro que ficou suspenso. Esse luto, fonte de água salgada.
Não sei o que fazer de mim, nem da minha cor.

sexta-feira

terça-feira

eu tu eles racistas

Você também acha que preto de terno é segurança ou pastor. Não pode ser executivo, ou advogado.
Você também acha que preta de branco é macumbeira. Não pode ser médica ou enfermeira.

Eu também associo branco a paz e preto a luto.
Tu também desconfias de gente escura que usa chinelo.
Ele também diz que não é racista porque até tem amigo preto.
Nós também aprendemos na escola que negros eram escravos, ninguém contou sobre os príncipes e reis negros.
Vós também repetis frases ofensivas como "Eu não sou tuas nega".
Eles também calam quando veem o racismo frente a frente.

Racismo mata, prende, constrói muros entre seres humanos porque os impede de enxergarem sua essência.
Inventa ódio e guerra e separa quem deveria estar junto.