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sábado

Mônica

Meu peito certa vez esteve rente ao peito Dela
Num abraço -
- encontro de Amor ancestral

Eu que me proíbo de chorar
para me ver forte
Saí do laço e vi seus olhos molhados

Fui atravessada pelo molhe
Feito fosse eu a rocha e ela o mar
Éramos uma

Célia

Pintava as unhas de azul. Negra e magra. Elegante,fazia seu trabalho sendo gentil com os passageiros. Nunca errou o troco e auxiliava os passageiros com dificuldades.
A cobradora da linha de ônibus que eu pegava sempre tem um nome forte: Célia. Quando a empresa demitiu todos os cobradores eu fiquei pensando nela. E nunca mais vi.
Ontem a encontrei. Mais magra, pele de outra cor e cabelos ressecados pela pintura e o alisamento. As unhas estavam feitas, mas escondia os olhos atrás de dos óculos escuros. Não perdeu a cordialidade, nem a desenvoltura de conversar com as pessoas. Ela quem veio falar comigo.
No pequeno trajeto, contou que tentou se matar três vezes. Falou dos remédios que está tomando e que está fazendo faxina para viver, mas tem dificuldade porque a medicação causa tonturas.
Espero ver Célia de novo e poder contar o próximo capítulo de sua história real.

quinta-feira

Camila

Tive algumas Camilas em minha vida.
Mas de uma tenho me lembrado sempre.
Uma que não consigo mirar nos olhos. Uma de quem sinto vergonha. Uma que é meu espelho.
Uma que desejou os mesmos homens que eu e os teve.
Uma que pintou os cabelos e ficou linda.
Uma cujo olhar me perturba a alma.
Uma a quem não consigo dirigir uma palavra.
Uma que não me deseja.
Já tive inveja, raiva, ciúmes, compaixão. Ela passou por mim na rua e estava linda. Eu ia ser gentil, mas ela apertou o passo. Por quê?
Se você não tivesse apertado o passo naquele dia, Camila, eu ia dizer o quanto tinha gostado do seu cabelo. E nada disso teria se passado.
Você era muito altiva, não vi sua fragilidade.
Se você tivesse deixado por um instante que eu me aproximasse, talvez eu não tivesse contado seus segredos. Seus segredos são só seus, Camila, mas não minta pra você.
Eu ia me aproximar naquele dia pra pedir sua amizade, mas você apertou o passo como seu eu fosse outra pessoa. Teve medo de mim?
Eu tentei me aproximar mais de uma vez.
Daqui a algum tempo eu não vou lembrar mais seu nome.
Agora, aqui seus movimentos lentos permanecem congelados na tela da minha mente.
Nunca mais vou evitar você nem tentar descobrir seus segredos se você nunca mais me desprezar.
Tudo só pra dizer que pertenço à sua vida ainda.
Era só pra dizer que nunca um nome caiu em cima de mim feito água gelada. Precisei deste banho pra ver minha face sem máscara.

segunda-feira

Trancar não é tratar

Lourdes passou metade da vida trancada e a outra metade tratando de internos do Pinel em Pirituba.
Crianças não podiam entrar no Hospital, então eu só fui conhecer como era lá dentro este ano quando precisei requisitar um documento. É bonito por dentro tanto quanto se podia ver de fora.
Minha memória não apaga uma imagem de um surto que ela teve. Eu devia ter uns quatro anos. Todo mundo em casa acordou. Ela tomava banho com detergente de cozinha. Maria Jose tentou tirá-la de lá. Ela ficou agressiva. Ouço sons de uma luta no corredor da casa. Já no hospital, vejo-a amarrada numa maca, não lembro dos gritos dela, só que lhe dão uma injeção que vai fazendo seu corpo mexer mais devagar até seus olhos fecharem. Meu tio riu não sei por quê o que fez acender no meu peito infantil uma chama de ódio legítimo. Fui perdoar já adulta, mas ainda doi.
Tudo isso deixa cicatriz, dessas que movem a gente para um tempo em que isso não aconteça de novo jamais.
#lutaantimanicomial #saudemental #DiaNacionaldeLutaAntimanicomial #manicomiosnuncamais #pinel

Camisa xadrez

Certa feita minha mãe fez seu psiquiatra surtar. Ela fazia psicoterapia de grupo e individual no Hospital do Servidor Público Estadual. Teve um sonho com seu psiquiatra e ele estava usando uma camisa xadrez. Mencionou o sonho para ele. Descreveu a camisa.
Passaram-se semanas. Ele só contou a ela depois, mas revirou a casa e achou essa camisa, tal e qual ela havia descrito.
Nem ele lembrava mais da camisa xadrez, nem mãe jamais o vira vestindo a tal.
Alguns vão chamar de sexto sentido, outros de esquizofrenia, outros de mediunidade, outros de paranormalidade. Você chamaria de que?
#18demaio #DiaNacionaldeLutaAntimanicomial

Rimbaud no hospício

Uma vez fui de carona pra SP visitar um amigo que estava internado na ala psiquiátrica do hospital. Rara vez na vida que visitei qualquer pessoa nessas condições. Nem minha avó eu fui ver quando ela estava no fim da vida. Mas naquele mesmo hospital eu nasci. Naquele mesmo hospital me tratei na infância das alergias de pele. Naquela ala psiquiátrica minha mãe ficou internada. E ali discuti com sua médica quando tinha 17 anos. Ela afirmando que minha mãe era doente e eu dizendo que não.
Meu amigo reclamou da comida sem sal. Eu levava um livro do Rimbaud com poemas que estava lendo. Dei o livro a ele. Ele abriu uma página aleatória, subiu no banco do refeitório e começou a declamar.
Nunca mais a poesia fez tanto sentido.
#ManicomiosNuncaMais #18demaio #DiaNacionaldeLutaAntimanicomial

Loucura e fuga

Mas sua mãe é louca. Você vai querer morar com ela? Isso me diziam. Eu sentia medo dela. E vergonha.
Nem lembro quando deixei de sentir medo. Me deixei enlouquecer, mas nunca houve entrega. A loucura nunca me pegou nos braços e amamentou. Leite que não presta, eles diziam.
A loucura rondou da sola dos meus pés à membrana das minhas células. E vai comigo para o túmulo.
Medo e vergonha me valeram pouco. Mas fugir desembestada da loucura, me trouxe até aqui.
#18demaio #LutaAntimanicomial

Minha cabeça não está muito boa

Tem vezes que ela diz: "Minha cabeça não está boa".
Quando eu era criança não entendia por que minha mãe tinha escolhido trabalhar num hospital psiquiátrico. Ela relatava algumas coisas. Que os choques elétricos eram horríveis. Que teve um acidente de trabalho por estar sozinha numa clínica e ser agredida pelas pacientes até ficar desacordada. Que era preciso esconder o álcool de limpeza para os pacientes alcoolistas não beberem.
Mas uma das coisas que mais me impressionava era o fato dela ter que dar banho e limpar o cocô dos pacientes.
Havia um profundo amor naquilo que ela fazia: cuidar dos outros. Cuidar de gente desconhecida.
Esse amor ao cuidado ficou registrado em mim num lugar fora da lógica.
Nem sempre eu sou a cuidadora que ela foi. Mas tento.
Nem sempre minha cabeça está boa, mãe.

#DiaNacionaldeLutaAntimanicomial #ManicomiosNuncaMais #18deMaio


sábado

Em Olinda os Cronópios dançam com fogo

Quando a lua vai crescendo, enche meu coração de memórias.
Hoje lembrei de uma argentina que conheci numa viagem de carona que fiz de SP a Olinda-PE. Era artista de rua, destas que dançam com fogo. Obviamente foi amor a primeira vista e recíproco. Amor e encantamento. Num papo breve sobre autores Jorge Luis Borges foi consenso. Até que perguntei a ela o que achava de Júlio Cortázar. "Enquanto a Argentina enfrentava uma ditadura, ele escrevia sobre Cronópios". Foi a resposta.
Cortázar era um desterrado. Ele próprio um cronópio. Não nasceu na Argentina, embora lá tenha vivido muito tempo. Para mim os cronópios e os famas são a própria alegoria, não de uma polaridade política, direita-esquerda, nem da dicotomia bem-mal, para além disso, são o apolíneo e o dionisíaco encarnados fábula. Uma fábula amoral.
Quanto a moça argentina cujo nome me esqueci, ela própria um cronópio, seguiu sua estrada com uma saia preta que dei de presente a ela. Em Olinda coube a um fama presentear à moça.

quinta-feira

Desafio Ar-Tesão-nato

30 dias de Ar-Tesão-Nato

1 - origami






2 - mini-zine









3- brinquedo
4 - desenho
5- yoga
6- poesia
7- mini-vestido
8. latinha
9- origami nível 2
10 - prosa
11- conto
12- ilustrar palavra
13- coreografar poema
14- fotografar o vazio
15- ticar uma lista
16- desenho num plano inclinado
17- movimento no plano inclinado
18- mini-música
19- poema cena
20- saraulizar
21- prosa nível 2
22- ilustrar me
23- hq
24- yoga nível hard
25- intensivo de ritmo
26- utilidade fútil
27- artesania roots
28- make and picture
29- pinta corpo
30- nu ante